domingo, 3 de novembro de 2013

PAIXÃO...

É o delírio de quem se entrega
É rebentação que carrega
É a raiz de onde brota a loucura
Paixão ...
É luz negra que ofusca e cega
É mar que se teme e se navega
É ânsia sublime de aventura
Paixão ...
É o abismo de quem se apega
É a bendita flor que o mal rega
É o reverso que tem toda jura
Paixão ...
É a surpresa que a gente não nega
É o destino de quem não sossega
É o mistério entre a espera e a procura
Paixão...
Estranha doutrina de fé que não se prega
Estranho prazer imortal imortal que nunca dura
Paixão...
É um trem que entristece e que alegra
Momento em que o amor quebra a regra
No coração de toda criatura...

(Paulo Cesar Pinheiro)
  

domingo, 28 de julho de 2013

A gente se acostuma


    Eu sei que a gente se acostuma. Mas não deveria ...
    A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem outra vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha pra fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
    A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o Jornal no ônibus porque não pode perder o tempo de viagem. A comer sanduíches porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
    A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz aceita ler todo dia, de guerra, dos números, da longa duração.
    A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
    A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
    A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar por ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
    A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável, à contaminação da água do mar, à lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galos na madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta do pé, a não ter sequer uma planta.
    A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só o pé e sua o resto do corpo.. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
    A gente se acostuma para não ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto acostumar, se perde de si mesma.
    ( Marina Colasanti)

Em uma instituição chamada "Igreja"

   "As convicções são inimigas da verdade e bem mais perigosas que as mentiras."

Eles me roubaram. Eles me roubaram o gosto e o prazer. Eles me roubaram a rima e a prosa. Eles me roubaram o espaço e o tempo.  Eles me roubaram a adolescência e o sexo. Eles me roubaram os dias e as semanas. Eles me roubaram os meses e os anos.  Eles me roubaram a indignação e a revolta.  Eles me roubaram a identidade e o destino. Eles me roubaram as palavras e os significados.  Eles me roubaram a casa e a cama. Eles me roubaram a liberdade e a escolha. Eles me roubaram os cabelos e a fala. Eles me roubaram o silêncio. Eles me roubaram a boa música. Eles me roubaram o pensamento. Eles me roubaram a inteligência. Eles me roubaram a cabeça. Eles me roubaram a credulidade e a paciência.  Eles me roubaram a naturalidade. Eles me roubaram em e quase tudo...
Roubaram e ou deixei me roubar, tudo em nome de Deus.
Sobrevivi a tudo isso e posso afirmar que não há instituição mais incoerente com seus próprios ensinamentos que a igreja.
Quanto à Deus, Ele não me incomoda...
          "O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventam outro mundo para poder caluniar e sujar este. De fato só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar essa existência".

terça-feira, 23 de julho de 2013

Amanheci

E o menino com o brilho do sol
Na menina dos olhos
Sorri e estende a mão
Entregando o seu coração
E eu entrego o meu coração
E eu entro na roda
E canto as antigas cantigas
De amigo irmão
As canções de amanhecer
Lumiar e escuridão

E é como se eu despertasse de um sonho
Que não me deixou viver

E a vida explodisse em meu peito
Com as cores que eu não sonhei
E é como se eu descobrisse que a força
Esteve o tempo todo em mim
E é como se então de repente eu chegasse
Ao fundo do fim...

(Gonzaguinha)
 
"Os olhos brilham ao contemplar o horizonte e o quintal fica pequeno demais..." (Cíntia Blanco)

domingo, 30 de junho de 2013

Realidade louca

A realidade ronda os caminhos da loucura ameaçando a todo momento desfazer sonhos, frustrar desejo e matar as alegrias.
A realidade se transfigura em um objeto frio e cruel chamado "espelho", que vive assombrando minha loucura, mostrando-se sempre superior e detentor da verdade.
Na loucura sou eu o louco, o protagonista, o senhor da beleza, mestre do talento, detentor do saber, o todo desejável.  Eu crio, eu imagino, eu deliro, eu sonho, eu posso...
A loucura é perigosa e confortante assim como qualquer outra droga, mas o que mata é o vício.
                        "Muito pra mim é tão pouco e pouco eu não quero mais..."

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Canção de Ninar


"Cada alegria desfaz algum nó
Não é preciso entender as paixões
Cada manhã vai te encontrar
Mesmo sem você querer
Mesmo se o sono durar
Sim cabe ao amor te aliviar
Do que te cansa
Sai dança no sol solta tua voz
Que a luz te alcança
Dança
Dança
Que o mundo vai te esquecer
Que o mundo não vai lembrar
Dança
Dança
Cada surpresa desfaz o que for
Não é preciso guardar as canções
Cada intenção muda de cor
Cada alegria é uma voz
Que alguém vai ter que escutar
Sim tudo é em vão nada é em vão
Então descansa
Sim nada demais tudo se faz
Vira lembrança
Dança
Dança
Que o tempo vai te levar
Que o tempo vai sem você
Dança
Dança
Dança..."

(Oswaldo Montenegro)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Sublimar

"Eu gosto tanto de você
Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar
Subentendido

Como uma ideia que existe na cabeça
E não tem a menor obrigação de acontecer

Eu acho tão bonito isso
De ser abstrato baby
A beleza é mesmo tão fugaz

É uma ideia que existe na cabeça
E não tem a menor pretensão de acontecer

Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza então,
A alegria que me dá
Isso vai sem eu dizer

Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
O que eu ganho, o que eu perco
Ninguém precisa saber..."

(Lulu Santos)