domingo, 10 de maio de 2015

Beijo ingrato


Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos



sábado, 9 de maio de 2015

A Gosto

Gosto do jeito que seduz, do olhar que me despe, do sorriso malicioso no canto da boca ao me ver corada e vulnerável, do braço que acolhe minha insegurança e timidez.
Gosto do toque suave em meu corpo, como alguém faminto que degusta devagarinho o doce,  pra que este não acabe e o sabor permaneça  por mais tempo na boca.
Gosto do beijo no canto da boca que sem pretensão desliza pelo meu pescoço.
Adoro quando seu 'falo' entende o quê falo, nessa minha fala quase balbuciada ao pé do seu ouvido.
O que mais gosto nisso tudo é que vou me entregando assim...A gosto...
"E o que é de gosto é regalo da vida".






sábado, 25 de abril de 2015

Vitrine

A menina quer um vestido.
A menina quer um vestido e sapatos de salto.
A menina quer um vestido, sapatos de salto e um colar de ouro.
A menina quer um vestido, sapatos de salto, um colar de ouro e um anel de brilhantes.
A menina quer um vestido, sapatos de salto, um colar de ouro, um anel de brilhantes e uma rosa vermelha.
A menina quer um vestido, sapatos de salto, um colar de ouro, um anel de brilhantes , uma rosa vermelha e seu retrato pintado num quadro.
A menina quer um vestido, sapatos de salto, um colar de ouro, um anel de brilhantes, uma rosa vermelha, seu retrato pintado num quadro e uma poesia inspirada nela.
A menina quer um vestido, sapatos de salto, um colar de ouro, um anel de brilhantes, uma rosa vermelha, seu retrato pintado num quadro, uma poesia inspirada nela e uma música composta em sua homenagem.
A menina quer ainda lindos sonhos ventilados e desejos ardentes?!
Ah menina... Queres continuar vivendo de ilusão? Sonhando como a feia na vitrine?
Ela desperta, mas com  uma outra pergunta:
- A Senhorita deseja alguma coisa?
Era o vendedor  incomodado com o tempo que ela passara ali quase imóvel admirando a vitrine, ela pacientemente responde com o olhar ainda fixo na vitrine:
- Sim, quero um abraço espontâneo, cheio, redondo, cujo o tempo de duração é suficiente para sentir o coração do outro batendo no meu peito e desejar que naquele instante ele bata na mesma frequência do meu...
O vendedor à olhou espantado sem entender nada, talvez achando que fosse louca. Ao olhar para o semblante do vendedor sorriu e saiu em busca de outra vitrine.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Penso, logo existo

Ela acordou, levantou-se e foi para o banheiro como fazia todos os dias. Se olhou no espelho.
Seria mais um dia como todos os outros dias, se não fosse aquelas perguntas que perturbavam o seu pensamento, nem bem acordará e aquilo já à incomodava.
Sabe um daqueles dias que você questiona a própria existência, buscando respostas sem se quer encontrar uma razoavelmente satisfatória? Pois é!
Seria mais comodo aceitar uma das muitas respostas prontas, afinal de contas, não seria a primeira nem a última pessoa a pensar nisso.
Quantos pensadores e filósofos famosos já pensaram nisso? Pra quê pensar novamente? Bom, a psicologia deve ter uma boa e convincente explicação para esse comportamento; mas preferia ter sua própria teoria sobre o assunto ou seu assunto.
Então um último bochecho, enxugou a boca na toalha, voltou para o quarto, vestiu-se e abriu a janela.
Ao olhar para fora presenciou uma cena realmente encantadora, um beija-flor revoava as flores do beiral da casa vizinha.
As perguntas aumentaram em sua cabeça, mas agora não mais se lamentando ou maldizendo, apenas tentando compreender.
Então debruçando-se na janela fantasiou...
Ei! Beija-flor!
De onde vem essa simplicidade encantadora que o faz tão desejável? Essa liberdade invejável que o faz se perder correndo atrás do que é belo? Seria o descomprometimento com o por vir nutrindo-se apenas de seus desejos e sonhos? Diga-me é possível viver só sem jamais cair na solidão? Como despertar paixões sendo apenas quem se é? De que fonte vem essa sabedoria que o torna cada vez mais hábil na arte de invadir sem representar qualquer ameaça?
Ah... Ensina-me a arte desse beijo que deixa saudade sem causar dependência.
Ela despertou...
Afastou-se da janela sorriu almejando que o beija-flor invadisse sua janela num voo rasante e esplendido, a fim de ensinar-lhe a arte de viver, transformando o seu dia em um dia mais feliz.
Talvez agora tivesse mais perguntas do que respostas. Então pegou a bolsa, cerrou a cortina e ainda com o sorriso nos lábios pensou: Hoje não é o melhor dia para se pensar nisso. E saiu.







quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O INGÁ E A CORUJA



Conta a história que uma menina construiu uma casa aconchegante, com janelas, varanda, quintal e uma cerca branca tudo com muito capricho, carinho e dedicação.
Ela quase não tinha tempo de sair para o quintal, pois a casa lhe consumia a maior parte do seu tempo, tempo esse que passava sem ela perceber. Sempre que tinha tempo gostava de debruçar-se sobre a cerca e observar a estrada longa que parecia tocar o céu no encontro com a linha do horizonte.
Dali ela observava atentamente o movimento da estrada antes de ser interrompida por alguma demanda urgente da casa. Enquanto estava ali se divertia, hora ria, hora espantava-se, às vezes ouvia histórias inteiras outras vezes só observava de longe o movimento e tirava suas próprias conclusões. Aquilo tudo lhe parecia uma boa distração.
Num desses dias de distração surgiu um moço na estrada que se aproximando da cerca disse:
- Boa tarde, meu anjo!
A menina ainda distraída com o olhar fixo no horizonte responde:
- Boa tarde!
- Então, que tarde agradável né?!
E a menina agora volta seu olhar ao moço e responde:
- Sim, muito...
Então a fim de esticar um pouco mais a conversa ele diz que está dando umas bandas por aquele lado da estrada e pergunta a menina:
- Você mora aqui?
- Sim
- A quanto tempo?
- Desde sempre...
E se despedem
- Boa tarde!
- Boa tarde!
Alguns dias depois lá estava o moço passando em frente a cerca novamente.
- Boa tarde, meu anjo!
- Boa tarde!
E então do nada ele lhe faz um elogio e depois outro e outro...
Ele diz o quanto gosta do seu perfume, fala que as meninas com tiaras ficam ainda mais bonitas, que aquela cor de roupa que está usando é sua preferida...
Além disso conta-lhe histórias de outras estradas que existem, dizendo-lhe que aquela estrada que ela vê na verdade não toca o céu.
E a menina vai se encantando e se envolvendo com todas aquelas histórias. Agora as demandas da casa podem esperar um pouco, pois não é educado deixar ninguém esperando no portão, ainda mais um moço de olhar iluminado e sorriso lindo como aquele.
A menina agora não mais distraída retoca o batom e com o livro nas  mãos que havia adquirido algumas semanas atrás e já lido, aguardava ansiosamente pela passagem do moço que gentilmente concedeu-lhe o autografo.
Dali em diante houveram muitos risos sobre aquela cerca, muitos abraços fortes, alguns beijos, poesias, uma dança juntinhos e até a composição de uma música.
 E a música foi a última coisa que fizeram juntos.
O moço parti...
A menina então num impulso sem pensar pula acerca branca e corre em direção ao moço que já está no meio do caminho, ele olha para ela e lhe dá um livro com sua última dedicatória.
Sorri e segue seu caminho.
Diz a lenda que a menina sentiu uma dor paralisante, um vazio tão grande que a ao apertar o livro contra o peito se transformou em um Ingá na beira daquela estrada e o moço em uma linda Coruja.
E quem passar por aquela estrada em noite fria e sem luar verá aquela linda Coruja de olhos brilhantes pousada num dos galhos do Ingá pronta para lhe contar mais uma história...




domingo, 3 de novembro de 2013

PAIXÃO...

É o delírio de quem se entrega
É rebentação que carrega
É a raiz de onde brota a loucura
Paixão ...
É luz negra que ofusca e cega
É mar que se teme e se navega
É ânsia sublime de aventura
Paixão ...
É o abismo de quem se apega
É a bendita flor que o mal rega
É o reverso que tem toda jura
Paixão ...
É a surpresa que a gente não nega
É o destino de quem não sossega
É o mistério entre a espera e a procura
Paixão...
Estranha doutrina de fé que não se prega
Estranho prazer imortal imortal que nunca dura
Paixão...
É um trem que entristece e que alegra
Momento em que o amor quebra a regra
No coração de toda criatura...

(Paulo Cesar Pinheiro)
  

domingo, 28 de julho de 2013

A gente se acostuma


    Eu sei que a gente se acostuma. Mas não deveria ...
    A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem outra vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha pra fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
    A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o Jornal no ônibus porque não pode perder o tempo de viagem. A comer sanduíches porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
    A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz aceita ler todo dia, de guerra, dos números, da longa duração.
    A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
    A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
    A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar por ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
    A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável, à contaminação da água do mar, à lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galos na madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta do pé, a não ter sequer uma planta.
    A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só o pé e sua o resto do corpo.. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
    A gente se acostuma para não ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto acostumar, se perde de si mesma.
    ( Marina Colasanti)