terça-feira, 16 de junho de 2015

O cê vai na fêra?

Me leva co cê na fêra que tô carecida de distração, pois passo o dia nessa janela sem sabê o que é diversão...
"A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos. Penso nisto, enterneço mas não sossego nunca."(Álvaro de Campos)






sábado, 13 de junho de 2015

A Pessoa do Fernando

Hoje é o seu dia meu querido e grande poeta.
Se houvesse uma máquina do tempo gostaria de te conhecer, sermos amigos de "porre" para que eu pudesse escrever os versos desconhecidos que não pudeste escrever  pela embriaguez. E depois, depois inventariamos um nome  para o autor de tais versos e você meu caro amigo, faria o mapa astral e assim saberíamos o que o universo destinaria a ele.
Sei muito pouco de Fernando Pessoa, mas gostaria mesmo de saber da pessoa do Fernando.
  
Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.


Fernando Antônio Nogueira Pessoa foi um dos mais importantes escritores e poetas do modernismo em Portugal. Nasceu em 13 de junho de 1888 na cidade de Lisboa (Portugal) e morreu, na mesma cidade, em 30 de novembro de 1935.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Escada fala?!


Em um consultório de psicologia aguardava minha vez de ser atendida, enquanto isso observava o pequeno ambiente, quando fui surpreendida com o barulho da escada.
A escada do consultório é uma daquelas antigas escadas de madeira que dificilmente se vê em outros lugares. Num primeiro momento me pareceu só um ranger barulhento de uma velha escada, mas com o passar das consultas semanais, comecei a prestar um pouco mais de atenção naquele barulho e a testar também os sons diferentes que dela saía. Se com sapatos de salto naturalmente o som se mostrava mais forte, mas mesmo com sapatos sem salto e pisando devagar ela não deixava de emitir seu som.
Na escada havia movimento de adultos, adolescentes e até de crianças, fossem subindo ou descendo ela não silenciava até que os mesmos deixassem o seu último degrau. Parecia uma mensageira do reino anunciando o quê está por vir, se tristeza, se alegria, se leveza, se fardo pesado, se arrogância, se timidez, se compromisso, se obrigação ou se falta de todas essas opções.
Essa escada não tem poucos degraus e nem muitos, mas o suficiente para pensar no que dirá quando chegar lá em cima e tempo suficiente para refletir em parte de tudo que foi pontuado enquanto se por ela desce.
Penso que essa escada não faz só um ranger barulhento, acho mesmo é que essa escada fala com o terapeuta enquanto ele no topo espera pacientemente a subida de cada cliente.
Bom, se essa escada fala ou não, isso não tem como saber, nem ter certeza, a menos é claro que o terapeuta resolva me contar entre uma xícara e outra de café.

domingo, 10 de maio de 2015

Beijo ingrato


Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos



sábado, 9 de maio de 2015

A Gosto

Gosto do jeito que seduz, do olhar que me despe, do sorriso malicioso no canto da boca ao me ver corada e vulnerável, do braço que acolhe minha insegurança e timidez.
Gosto do toque suave em meu corpo, como alguém faminto que degusta devagarinho o doce,  pra que este não acabe e o sabor permaneça  por mais tempo na boca.
Gosto do beijo no canto da boca que sem pretensão desliza pelo meu pescoço.
Adoro quando seu 'falo' entende o quê falo, nessa minha fala quase balbuciada ao pé do seu ouvido.
O que mais gosto nisso tudo é que vou me entregando assim...A gosto...
"E o que é de gosto é regalo da vida".






sábado, 25 de abril de 2015

Vitrine

A menina quer um vestido.
A menina quer um vestido e sapatos de salto.
A menina quer um vestido, sapatos de salto e um colar de ouro.
A menina quer um vestido, sapatos de salto, um colar de ouro e um anel de brilhantes.
A menina quer um vestido, sapatos de salto, um colar de ouro, um anel de brilhantes e uma rosa vermelha.
A menina quer um vestido, sapatos de salto, um colar de ouro, um anel de brilhantes , uma rosa vermelha e seu retrato pintado num quadro.
A menina quer um vestido, sapatos de salto, um colar de ouro, um anel de brilhantes, uma rosa vermelha, seu retrato pintado num quadro e uma poesia inspirada nela.
A menina quer um vestido, sapatos de salto, um colar de ouro, um anel de brilhantes, uma rosa vermelha, seu retrato pintado num quadro, uma poesia inspirada nela e uma música composta em sua homenagem.
A menina quer ainda lindos sonhos ventilados e desejos ardentes?!
Ah menina... Queres continuar vivendo de ilusão? Sonhando como a feia na vitrine?
Ela desperta, mas com  uma outra pergunta:
- A Senhorita deseja alguma coisa?
Era o vendedor  incomodado com o tempo que ela passara ali quase imóvel admirando a vitrine, ela pacientemente responde com o olhar ainda fixo na vitrine:
- Sim, quero um abraço espontâneo, cheio, redondo, cujo o tempo de duração é suficiente para sentir o coração do outro batendo no meu peito e desejar que naquele instante ele bata na mesma frequência do meu...
O vendedor à olhou espantado sem entender nada, talvez achando que fosse louca. Ao olhar para o semblante do vendedor sorriu e saiu em busca de outra vitrine.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Penso, logo existo

Ela acordou, levantou-se e foi para o banheiro como fazia todos os dias. Se olhou no espelho.
Seria mais um dia como todos os outros dias, se não fosse aquelas perguntas que perturbavam o seu pensamento, nem bem acordará e aquilo já à incomodava.
Sabe um daqueles dias que você questiona a própria existência, buscando respostas sem se quer encontrar uma razoavelmente satisfatória? Pois é!
Seria mais comodo aceitar uma das muitas respostas prontas, afinal de contas, não seria a primeira nem a última pessoa a pensar nisso.
Quantos pensadores e filósofos famosos já pensaram nisso? Pra quê pensar novamente? Bom, a psicologia deve ter uma boa e convincente explicação para esse comportamento; mas preferia ter sua própria teoria sobre o assunto ou seu assunto.
Então um último bochecho, enxugou a boca na toalha, voltou para o quarto, vestiu-se e abriu a janela.
Ao olhar para fora presenciou uma cena realmente encantadora, um beija-flor revoava as flores do beiral da casa vizinha.
As perguntas aumentaram em sua cabeça, mas agora não mais se lamentando ou maldizendo, apenas tentando compreender.
Então debruçando-se na janela fantasiou...
Ei! Beija-flor!
De onde vem essa simplicidade encantadora que o faz tão desejável? Essa liberdade invejável que o faz se perder correndo atrás do que é belo? Seria o descomprometimento com o por vir nutrindo-se apenas de seus desejos e sonhos? Diga-me é possível viver só sem jamais cair na solidão? Como despertar paixões sendo apenas quem se é? De que fonte vem essa sabedoria que o torna cada vez mais hábil na arte de invadir sem representar qualquer ameaça?
Ah... Ensina-me a arte desse beijo que deixa saudade sem causar dependência.
Ela despertou...
Afastou-se da janela sorriu almejando que o beija-flor invadisse sua janela num voo rasante e esplendido, a fim de ensinar-lhe a arte de viver, transformando o seu dia em um dia mais feliz.
Talvez agora tivesse mais perguntas do que respostas. Então pegou a bolsa, cerrou a cortina e ainda com o sorriso nos lábios pensou: Hoje não é o melhor dia para se pensar nisso. E saiu.